14 mar Caroço do açaí tem propriedade curativa
Fruto nativo da Amazônia, o açaí, que já ultrapassou as fronteiras da culinária nortista, está prestes a ganhar também as prateleiras das farmácias. O produto que já caiu no gosto nacional, cuja polpa é servida em abundância no centro-sul do País, em tigela misturada com xarope de guaraná, cereais, banana e outras frutas, agora, revela-se um importante anti-hipertensivo, antidiabético, redutor do nível de colesterol no sangue, anti-inflamatório e antioxidante capaz de reduzir, inclusive, lesões do enfisema pulmonar. Responsável pela descoberta, o médico e farmacologista Roberto Soares de Moura, da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), avaliou os benefícios do caroço do fruto
"Trabalho com plantas medicinais e o que me atrai é trabalhar com plantas que a população consome. Fui em uma lanchonete aqui em Ipanema, no Rio de Janeiro, e vi aquele tanto de jovens saboreando esse fruto. Perguntei para o dono onde ele conseguia o açaí, e ele disse que vinha de Belém, como uma rapadura congelada. Voltei para o laboratório da Uerj e fiz umas experiências e verifiquei que o fruto tinha uma atividade de relaxar os vasos. Mas eu não podia trabalhar com uma coisa que era vendida na lanchonete. Aí me lembrei que eu tinha um aluno de pós-graduação, que agora é professor da Faculdade Farmácia da Universidade Federal do Pará. Pedi, e ele passou a me enviar o coco inteiro do açaí. Fiz experiências e verifiquei que as atividades antioxidantes e as atividades vasodilatadoras eram muito maior no caroço. O que a população come tem as mesmas atividades, mas no caroço tem muito mais concentração de polifenóis ou flavonoides, substâncias com excelente ação contra os radicais livres e presentes nessa parte da fruta", explicou.
Efeito vasodilatador foi testado em ratos de laboratório
Ao constatar o efeito vasodilatador do produto em camundongos, o professor produziu três extratos diferentes para introduzir na dieta dos roedores: um feito da fruta inteira, outro somente da polpa e um terceiro apenas do caroço. Em um dos grupos testados, os animais não tinham uma alimentação balanceada, eram hipertensos, diabéticos e obesos. Os testes comprovaram que os efeitos danosos da alimentação rica em gordura oferecida aos camundongos foram amenizados pelos preparados de açaí. Para os animais que ingeriam o extrato do caroço do açaí, a vasodilatação foi bem evidente.
"A ação vasodilatadora permite que o composto seja utilizado como anti-hipertensivo. O extrato reduz o colesterol e tem efeito celular, pois ativa um transportador de glicose, o glut 4. Em seres humanos diabéticos ou com síndrome metabólica, esse receptor fica adormecido e não transporta adequadamente o açúcar para o interior das células", especifica o pesquisador, que já patenteou as descobertas e está trabalhando no desenvolvimento de um medicamento oral em forma de cápsula feito a partir do caroço.
Eficácia é maior no combate às lesões provocadas pelo enfisema
No entanto, para o cientista nenhuma dessas descobertas é tão "espetacular" quanto a que ele definiu como radical, no combate ao enfisema pulmonar, mal que acomete milhões de pessoas em todo o mundo. "É um espetáculo. O hábito de fumar produz na espécie humana o que se chama de enfisema, que é uma destruição do alvéolo pulmonar. Quer dizer, os homens que fumam por muito tempo passam a ter lesões no pulmão, causadas por uma reação inflamatória, por uma reação de estresse oxidativo e ativação de enzimas que destroem a estrutura pulmonar. Nós temos um modelo experimental que coloca o camundongo para fumar. Ao fim de dois meses a gente sacrifica o animal e ele tem enfisema, igual a um fumante de 20 anos. O meu extrato tem um efeito antioxidante, anti-inflamatório e antirradical livre, então imaginei se não teria como prevenir o enfisema provocado pelo fumo através dele. Coloquei o extrato no interior do cigarro, junto com o fumo. Ao fazer a biópsia, o grupo de animais que fumou o cigarro sem o açaí teve uma lesão grave, já os que fumaram com o extrato tiveram uma lesão muito menor. Isso mostra que se amanhã, todos os cigarros tiverem o açaí na sua composição, o cigarro não teria tanto efeito tóxico", destaca o médico.
Produto pode ser componente do cigarro e pomada cicatrizante – O extrato do caroço da fruta poderá ser usado ainda como cicatrizantes na forma de pomada e enxaguatório bucal. Uma parceria com um laboratório particular permitirá o desenvolvimento desses produtos. "Eu vi em Belém e fiquei impressionado com o tanto de caroço que é jogado no lixo. São sacos e mais sacos jogados fora. Acredito que essa parte do açaí, que hoje é desprezada, em breve será matéria-prima para medicamentos, como gel cicatrizante, cápsulas e outros produtos, assim como também, em filtros para cigarros. E o que é melhor, a preços muito acessíveis. Se fosse da polpa iria encarecer, inclusive, o preço do próprio açaí para o consumo", enfatiza Moura.
Ele ressalta ainda que o Pará poderá ser o grande beneficiado com a exploração do caroço do açaí para o uso medicinal. O Estado é o maior produtor nacional da fruta. Em 2009, os paraenses extraíram das palmeiras 605 mil toneladas. Atualmente, a polpa é também exportada para diversos países. O agronegócio do produto envolve mais de 30 mil pessoas.
Consumidor diz que governo do Pará devia estar à frente
O cabeleireiro João Carlos Duarte toma açaí semanalmente e considera a pesquisa importantíssima, mas acredita que os estudos com o fruto paraense deveriam ter sido incentivados pelo Governo do Estado e realizado por instituições de ensino regionais. "O açaí é um produto daqui e estamos cansados de saber que ele tem tantos componentes bons e traz tantos benefícios. É um absurdo que as pesquisas com a fruta sejam feitas fora daqui. O Governo deveria incentivar as pesquisas, para que os de fora não levem embora o que é nosso, como fizeram com o cupuaçu", disse ele.
A feira da avenida Romulo Maiorana (antiga 25 da Setembro), no Marco, é o local onde o advogado carioca Alessandro Reis compra dois litros de açaí por semana. Ele tem na família muitos casos de hipertensão e avalia que a pesquisa com o caroço do açaí é de grande importância não só para saúde, como para o desenvolvimento da região. "Acredito que é uma pesquisa superválida, aliás, tudo que traz o progresso para as pessoas é válido. Através deste estudo é possível melhorar a saúde das pessoas, trazer benefícios, investimentos e recursos para cá. Acho que quem diz que a fruta pode acabar ou encarecer tem um pensamento egoísta, porque a natureza é de todo mundo", defendeu.
Paraense só teme o aumento no preço
Nos pontos de vendas do açaí, em Belém, o estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) divide opiniões: há aqueles que consideram a pesquisa importante, dada a quantidade de pessoas que sofrem com as doenças, mas há também os que temem o aumento no preço do açaí caso a pesquisa resulte em medicamentos potenciais.
Na avenida Bernardo Sayão, no Guamá, a cada esquina se vê as bandeiras vermelhas que indicam a venda do açaí. Na banca onde Ducilene Oliveira trabalha, são
As sacas utilizadas para recolher os caroços não são levadas pelos carros de coleta diária da Prefeitura de Belém, por serem consideradas entulho. Por esta razão, os batedores de açaí precisam pagar para que carregadores levem os resíduos até os lixões. "Pagamos R$ 1,00 por saca que carregam", afirmou o batedor de açaí Paulo Afonso Lima. Para ele, o extrato retirado do caroço poderia se tornar uma fonte de renda extra. "Se vai fazer bem para a população e os caroços não têm utilidade, os batedores podem vender o açaí e ainda vender os caroços", completou.
Fonte: Portal ORM
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