23 nov ARTIGO – Farmacêutico, a fonte límpida de informações
A cidade é
pequena, pacata.
Não tem mais que
10 mil
habitantes. A
calma da
ruazinha central
é quebrada
apenas pelo
entra-e-sai de
pessoas na única
farmácia do
lugar. Estão,
ali, para se
orientar com o
farmacêutico
sobre o uso
correto do
medicamento e
sobre cuidados
gerais em saúde. E, também, para
muito mais.
Em geral, aquela
farmácia está
sempre cheia. O
centro das
atenções é o
farmacêutico.
Ele é a
autoridade da
cidadezinha.
Estudantes do
ensino
fundamental o
cercam para
aprender com ele
Química e
Biologia,
visando às
provas do dia
seguinte. Outro
grupo de
estudantes
aguarda a sua
vez para
igualmente ter
com ele uma aula
improvisada. O
assunto é
Matemática.
O farmacêutico
para, com o
objetivo de
atender a um
cliente. Diz-lhe
que o
antibiótico à
base de
tetraciclina não
deve ser tomado
com leite.
Explica-lhe que
o cálcio contido
no leite
interage com o
medicamento,
dificultando a
sua absorção
pelo trato
gastrintestinal.
Aproveita para
citar que outros
medicamentos
também interagem
com alimentos.
De repente,
chega uma
paciente e
solicita uma
conversa mais
reservada com o
farmacêutico.
Acanhada, ela
pede um
antibiótico. Não
porta receita
médica.
O farmacêutico,
com sua
psicologia, faz
uma anamnese
(entrevista com
o objetivo de
levantar
informações
sobre o estado
do paciente) e
presume que a
mulher tenha uma
candidíase
vaginal, doença
causada por um
fungo. Então,
adverte que ela
não pode tomar
antibiótico sem
receita médica e
diz que esse
tipo de
medicamento só
age diante de
bactérias, não
surtindo efeitos
sobre o causador
de sua doença
(um fungo). Ela
confessa que já
vinha tomando
antibióticos e
que, realmente,
não sentira
nenhuma melhora.
O farmacêutico
aconselha-a a ir
à cidade mais
próxima, onde há
recurso médico,
para fazer uma
consulta.
Dentro da
farmácia, vão
chegando os
senhores da
cidade, como
sempre fazem,
àquela hora. São
de várias idades
e classes
sociais.
Sentam-se nos
longos bancos.
Esperam que o
farmacêutico
tenha um
instante de
folga para
iniciar a prosa
boa, já que esta
não teria
sentido, sem a
sua
participação. A
conversa gira em
torno das
chuvas, que
estão
tardando-se,
comprometendo a
lavoura.
Em seguida, a
conversa avança
para a política,
passando pelas
questões
econômicas e
sociais. Todos
falam, olhando
atentamente para
o farmacêutico.
Para cada
assunto, ele tem
uma explicação,
porque é um dos
poucos do lugar
que recebe
jornais e
revistas, além
de ter uma
habitual leitura
técnica e
científica sobre
diferentes
assuntos.
O farmacêutico,
sempre
disponível e
solícito,
aproveita cada
oportunidade
para, de forma
didática, chamar
a atenção para
como se prevenir
contra doenças e
para a
necessidade de
mudanças nos
hábitos de vida
em favor da
manutenção da
saúde. Ao
hipertenso,
orienta sobre a
forma correta de
tomar os vários
medicamentos
prescritos pelo
médico,
ressaltando o
perigo da
interação
medicamentosa.
Aconselha-o a
fazer caminhadas
diárias, a
diminuir a
ingestão de sal
e gordura. Faz
ainda
aconselhamentos
ao diabético.
Tempo depois, a
conversa
envereda para
outros temas. Os
festejos da
padroeira, o
novo padre que
chegara à
cidade, as
reformas do
clube e o
futebol vão
entrando na roda
de discussões. A
essas alturas,
há pessoas
também do lado
de fora da
farmácia,
sentadas em
bancos à sombra
de uma árvore.
Entabulam longas
conversas sobre
diferentes
temas, mas,
volta e meia,
dirigem-se ao
farmacêutico
para conferir o
correto sentido
dos assuntos.
Lá dentro, o
farmacêutico
recebe um senhor
da área rural.
Está triste,
cabisbaixo por
um infortúnio
qualquer. Ele
não quer
medicamentos.
Apenas busca uma
palavra amiga,
um conforto
espiritual que
aplaque a dor
que o corrói por
dentro. E tem do
farmacêutico as
palavras exatas
de que precisa.
Caros leitores,
as cenas citadas
passaram-se, nos
anos 30 do
Século XX,
quando, nos
interiores mais
distantes do
Brasil, o
farmacêutico era
o único
profissional da
saúde. Mais que
isso, ele era o
pólo irradiador
de informações,
o conselheiro
das famílias, o
mediador nas
contendas; o
sanitarista
permanentemente
de prontidão
para investigar
problemas de
saúde, no
Município; o
palestrante
sobre assuntos
de saúde, nas
escolas e no
salão paroquial,
o escutador.
As cenas não são
apenas uma
pálida lembrança
do passado. O
farmacêutico
eternamente será
pleno desses
atributos. É de
sua índole. Ele
é
verdadeiramente
o educador em
saúde, e o
alcance social
de suas ações é
incalculável. E,
como está sempre
disponível, em
sua farmácia ou
na farmácia onde
atua, e como é
um profissional
excepcionalmente
qualificado,
técnica e
cientificamente,
ele precisa ser
ainda mais
procurado pela
sociedade.
Jamais um
paciente
necessitará de
marcar horário,
ou fazer ficha
para ser
atendido pelo
farmacêutico. É
só chegar e terá
a orientação de
que precisa.
Dono de amplos
conhecimentos
científicos
adquiridos, na
Universidade, o
farmacêutico tem
diversificado as
suas atividades.
Hoje, são 76, e
todas elas
regulamentadas
pelo Conselho
Federal de
Farmácia (CFF).
As atividades
desenvolvem-se
nas áreas da
farmácia
clínica, da
indústria, das
análises
clínicas e
toxicológicas,
da citopatologia,
da radiofarmácia,
do alimento, da
terapia
nutricional etc.
Ressalto que o
farmacêutico
está no front
dos
conhecimentos
biotecnológicos,
genéticos. A
genética está
expandindo as
fronteiras da
atividade
farmacêutica a
um mundo novo e
muito mais
promissor, onde
a cura de
doenças
consideradas
incuráveis
passou a ser
algo factível.
É, neste
ambiente
científico
revolucionário,
onde estão
surgindo novas
gerações de
medicamentos,
denominados de
farmacogenômicos.
Eles já chegaram
ao mercado,
trazendo
esperanças à
humanidade. As
terapias
celulares são
outros focos do
farmacêutico
que, diga-se de
passagem, tem
sobre os ombros
o peso de um
grande desafio
social e
sanitário. Mas o
farmacêutico não
rompeu o cordão
umbilical que o
liga à sua
atividade mãe,
que é a
assistência
farmacêutica
prestada, na
farmácia. Dentro
desse
estabelecimento
(de saúde,
enfatize-se),
ele é a
autoridade
máxima.
Caro leitor,
experimente
conversar com o
farmacêutico. As
cenas que
descrevi podem,
sob certos
aspectos, não se
repetir
necessariamente,
mas o
profissional –
hoje, muito mais
qualificado,
mais dotado de
conhecimentos
científicos – é,
em sua essência,
o mesmo
farmacêutico
pleno de desejo
de servir. Fale
com o
farmacêutico. O
prazer será todo
dele.
Autor:
Jaldo de Souza
Santos,
Presidente do
Conselho Federal
de Farmácia
Fonte: CFF
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