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Morre Carl Djerassi, o pai da pílula anticoncepcional, anos 91 anos

Morre Carl Djerassi, o pai da pílula anticoncepcional, anos 91 anos

Carl Djerassi, o eminente químico que há 63 anos mudou o mundo sintetizando o ingrediente chave para o contraceptivo oral conhecido como “a pílula”, morreu na sexta-feira (30) em sua casa em San Francisco. Ele tinha 91 anos.

Seu filho, Dale, disse que a causa da morte foram complicações de câncer de fígado e ósseo.

Dr. Djerassi chegou aos EUA após a Segunda Guerra Mundial assolar a Europa: um menino de 16 anos, refugiado austríaco judeu que, com sua mãe, perdeu os últimos US$ 20 com um golpe de um taxista de Nova York. Ele escreveu a Eleanor Roosevelt pedindo ajuda, e obteve uma bolsa de estudos. Foi uma pequena ajuda que fez uma grande diferença.

Dr. Djerassi escreveu livros, peças de teatro e 1.200 artigos científicos; lecionou em universidades durante cinco décadas, criou uma colônia de artistas na Califórnia, e obteve uma patente no primeiro anti-histamínico. Seus trabalhos sobre a ciência do controle de natalidade geraram controvérsias e mudanças sociais, alterando as práticas sexuais e comportamentos reprodutivos, a economia da família e a vida profissional de milhões de mulheres em todo o mundo.

Embora nunca tenha sido um nome familiar, Dr. Djerassi foi muitas vezes chamado “o pai da pílula”. Mas era um exagero. Ele não inventou a pílula anticoncepcional comercial; era apenas um de vários cientistas que trabalharam por décadas e que foram pioneiros das bases químicas do que se tornaria a pílula.

E, no mesmo dia da descoberta, ele foi um dos dois químicos que trabalharam com um aluno em um pequeno laboratório farmacêutico na Cidade do México que primeiro sintetizou uma progestina chamado norethindrone, que se tornou o principal ingrediente da pílula. Foi no dia 15 de outubro de 1951 –uma daquelas datas registradas para a posteridade– um ano antes da criação de compostos semelhantes.

Os cientistas há muito sabiam que os altos níveis de estrogênio e progesterona inibem a ovulação. Mas sintetizá-los a partir de extratos de origem animal ou vegetal se provou caro e ineficaz para uso como contraceptivos orais.

A síntese por Dr. Djerassi e seu colega, Dr. George Rosenkranz e o aluno, Luis E. Miramontes tornou o uso oral economicamente viável e eficaz. Todos os três nomes constaram na patente.

Primeiramente, a equipe considerou a descoberta um avanço para a fertilidade, não para o controle de natalidade. Embora o significado da pílula como um inibidora gravidez foi logo reconhecida, foram necessários cinco anos de ensaios para demonstrar a sua relativa segurança e eficácia. Mesmo assim, as empresas farmacêuticas estavam relutantes em comercializar a pílula, temendo boicote de seus produtos por grupos religiosos e outros que se opunham ao controle de natalidade.

Na década de 1960, no entanto, a pílula –com base também no trabalho pioneiro de M. C. Chang, Gregory G. Pincus, John Rock e outros, e tecnicamente conhecido como a pílula anticoncepcional– foi desenvolvida e comercializada por várias empresas farmacêuticas. Entre elas a Syntex, onde o Dr. Djerassi e seus colegas haviam trabalhado.

O uso da pílula se espalhou rapidamente e produziu grandes efeitos econômicos e sociais. Ele deu às mulheres controle sem precedentes sobre a fertilidade ao separar o sexo da procriação. Permitiu a casais planejarem a gravidez e controlar o tamanho da família e às mulheres planejar a formação educacional e a carreira. O uso também gerou debates sobre a promiscuidade e sobre a moralidade do controle de natalidade. A Igreja Católica, em particular, enfatizou sua proibição sobre a contracepção artificial.

Ao longo dos anos, o Dr. Djerassi palestrou para promover a pílula e enfrentou controvérsias sobre possíveis efeitos colaterais, incluindo aumento do risco de coágulos de sangue, câncer e sangramento excessivo durante a menstruação. Ele rejeitou tais alegações, mas as doses de estrogênio e progesterona da pílula foram posteriormente reduzidas para reduzir o risco de efeitos colaterais.

A pílula tornou o Dr. Djerassi rico e uma espécie de celebridade. Ele alternava entre as atividades de professor de química, empresário de controle de insetos, colecionador de arte, um fazendeiro, autor de romances de ciência e livros de não ficção, poeta, dramaturgo e fundador de uma colônia de artistas.

“Sim, eu tenho orgulho de ser chamado de pai da pílula”, disse em 2000. “Mas identificar os cientistas é realmente apenas uma fachada para a identificação das invenções ou descobertas. Talvez seja verdade que as peças de Shakespeare nunca teriam sido escritas, se não fosse por Shakespeare. Mas estou certo de que se nós não tivéssemos feito o nosso trabalho, alguém teria vindo logo depois e realizado.”

HISTÓRIA

Carl Djerassi nasceu em Viena em 29 de outubro de 1923, filho de Samuel e Alice Friedmann Djerassi. Seus pais eram médicos que se divorciaram quando ele tinha 6 anos. Era um aluno brilhante, frequentou escolas em Viena, e passava o verão em Sófia, Bulgária, onde seu pai especialista no tratamento de doenças venéreas antes da penicilina.

Em 1938, quando a Alemanha nazista anexou a Áustria e 70.000 judeus e comunistas austríacos foram rapidamente cercados, o patriarca Dr. Djerassi retornou a Viena e se casou novamente sua esposa, a fim de levá-la e também Carl para fora do país. O casamento foi logo anulado, e Carl e sua mãe tomaram o seu caminho para os Estados Unidos em 1939, estabelecendo-se no interior de Nova York, onde sua mãe trabalhava em um consultório médico. Seu pai emigrou para os Estados Unidos em 1949.

Com uma bolsa de estudos organizada pela intercessão de Eleanor Roosevelt, Carl passou brevemente por Tarkio College, em Missouri, e em seguida obteve o grau de bacharel com honras em química na Kenyon College em Ohio, em 1942, quando não tinha nem 19 anos. Em 1945, obteve o doutorado na Universidade de Wisconsin e se tornou um cidadão americano naturalizado.

Nos quatro anos seguintes, o Dr. Djerassi foi químico da Ciba, empresa farmacêutica suíça em Nova Jersey, onde ele recebeu uma patente para o desenvolvimento de Pyribenzamine (tripelenamina), o primeiro anti-histamínico comercial.

CASAMENTOS E FAMÍLIA

Seu casamento com Virginia Jeremiah terminou em divórcio em 1950. Ele e Norma Lundholm se casaram naquele mesmo ano e tiveram um filho, Dale, e uma filha, Pamela, que cometeu suicídio em 1978. Esse casamento acabou em divórcio em 1976.

Diane Middlebrook, com quem se casou em 1985, morreu em 2007. Além de seu filho, ele deixa uma enteada, Leah Middlebrook, e um neto, Alexander Djerassi.

Em 1949, Dr. Djerassi tornou-se diretor associado de pesquisa da Syntex na Cidade do México, onde estudou os usos de cortisona, assim como distúrbios menstruais e câncer.

Depois de seu trabalho inovador no primeiro contraceptivo oral sintético, ele se tornou um professor de química na Wayne State University, em Detroit, em 1952. Em 1959, ele se juntou ao corpo docente da Universidade de Stanford, onde lecionou até se aposentar em 2002.

Em 1959, ele também se tornou presidente da Syntex Laboratories na Cidade do México e Palo Alto, Califórnia, o que o fez rico. Em Woodside, perto de Palo Alto, ele comprou 1.200 hectares, montou uma fazenda de gado e começou a colecionar obras de arte, principalmente pinturas de Paul Klee, suíço-alemão expressionista.

Em 1968, Dr. Djerassi fundou a Zoecon, empresa que desenvolveu controles de insetos com uso de hormônios de crescimento de insetos modificados para evitar metamorfoses de larvas à pupa e à fase adulta.

Em 1979, após a morte de sua filha, que era uma artista, Dr. Djerassi transformou metade de sua fazenda de gado em uma colônia de artistas com abrigo e estúdios para dezenas de artistas visuais e performáticos, escritores, dramaturgos, coreógrafos e compositores.

Dr. Djerassi escreveu muitos livros sobre temas científicos, incluindo óptica, esteróides e a pílula; um livro sobre a política de contracepção; e várias memórias, incluindo uma publicada no ano passado, “Em Retrospectiva: da Pílula para a Caneta”. A partir do final dos anos 1980, ele também escreveu romances, incluindo o que ele chamou de “ciência-em-ficção”, que incidiu sobre a ética de pesquisa científica moderna e os conflitos que os cientistas enfrentam na sua busca de conhecimento e reconhecimento.

Ele também escreveu uma série de peças que foram produzidas na Europa, Ásia e América.

Dr. Djerassi, que também tinha casas em Viena e Londres, recebeu 34 doutorados honorários e um grande número de prêmios profissionais e governamentais, incluindo a National Medal of Science (química), a maior honraria da ciência do país, conferida pelo presidente Richard M. Nixon em 1973, e a Medalha Nacional de Tecnologia e Inovação, a mais alta condecoração em tecnologia do país, conferida pelo presidente George W. Bush em 1991.

Fonte: The New York Times

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